terça-feira, 18 de agosto de 2009

Meu já velho amor (Moisés Neto)


Do peito, cai a blindagem que fiz questão de criar... Quem sabe pra me defender do fato de não ter te esquecido, de ter me encontrado no fundo dos seus olhos morenos (ainda mais fundos, diga-se de passagem). Me lembro do calor das tuas coxas, da leveza da tua pele, do teu cheiro de Nivea branco (não sei bem o nome), do teu jeito de mulher mas com garra de leoa. Sinto falta de você desarrumando tudo, mudando a minha vida e me arremessando no abismo mais bonito. Sinto falta de ser louco contigo e molho o papel só de escrever isso. Pode parecer deslocado te dizer isso depois de tanto tempo, mas eu te amo. Te amo com toda a força do meu ser e tremo só de ouvir alguém dizer teu nome. Me arrependo de ter sido tão inseguro e imaturo, te dando tão pouco em troca do tanto que ganhei... Te agradeço, mas também a culpo, por tudo o que vim a me tornar: um cara extremamente inconstante, perdido entre o que quer e o que precisa, um cara com dois terços de maturidade e três quartos de ilusão... um utópico apaixonado, mas também apaixonante. Odiava a tua segurança e a propriedade com a qual expunha e defendia tudo em que acreditava... Aprendi contigo a gritar, a chorar, a sentir, a viver... Mas não a viver sem você... Não me leve a mal, ok? Te desejo toda a sorte do mundo, mas as coisas perderam a cor e a magia de antes... A Lapa, a Rio Branco, a Presidente Vargas, o portão da São Clemente, a Cidade Nova, o metrô do Estácio, Piedade, Inhaúma, Cascadura, a Rua do Rio, o carro do Bruno, a Glaziou, a Parmê, o macarrão de forno, o quinto andar do teleporto, o banheiro, a cozinha, o sofá, a escada e o terraço lá de casa... Você passando as minhas roupas, escolhendo meu All Star, o amor no embalo da rede... A fábrica abandonada, eu sendo batizado e, perdão Senhor, mas pensando em você e passando imune às outras queixas e ilusões alheias, ligado somente em você. A coragem que eu tinha em gritar ao mundo que te amava, seus cachorros latindo, eu nu em seu corredor me escondendo, minhas lágrimas misturadas à chuva, o 284, o Jacarezinho, o tapa que você levou por minha causa e a porrada que levei da vida por sua causa. Tanto de mim em nós dois e eu magoando tanta gente por ter te feito um fantasma... Hoje, que se foda o mundo, eu só quero que saiba que eu te amo, meu já velho amor...

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