terça-feira, 18 de agosto de 2009

Identidade (Moisés Neto)

Resta-me, ainda, o vazio angustiante
Precipita-se, portanto, algo novo em minha vida
A tal da Aurora que esperas é vadia
E a solidão é tão exata e prevenida

Vinte letreiros entre a tua e a minha casa
São como mapas indicando o caminho
Que até sigo, sem noção de ser promíscuo
Mas qual a um sonho em que sou o ser sozinho

Léguas e léguas adiante vi teu corpo
Senti o cheiro doce e forte do riacho
E a densidade deste solo no qual pisas
A maltratar-me como a uva sem cacho

Roubas-me, agora, o brasão e a identidade
Que, em algarismos, diz o tanto que vivi
Mulher ingrata, soberana e perigosa
Como a serpente que, em outros campos, vi

Sem meio-termo, destratou-me n'uma noite
Na qual a lua fez questão de aparecer
Para enxugar as minhas lágrimas saudosas
Por quem um dia eu jurei poder morrer

Agora vejo a razão e o infortúnio
Que, n'outros tempos fiz questão de não notar
Percebo, enfim, a minha imaturidade
Não fujo a regra de enganar-me por amar!

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