Hoje, mais um dia que se configura inerte. Por sob meus pés um chão coberto de areia movediça. A lua apresenta sem efeitos especiais as cordas que a penduram. O sol já beija sem pudor outros peitos e bundas. Todo o céu emite um silêncio suspeito. Tudo indica que fomos esquecidos, mas será? Me pergunto todo o dia quanto tempo levará até essa navalha cortar meus pulsos e tudo ter sentido... Mas não eu, não é? Sou prepotente demais para condenar a mim mesmo à morte. Sou inteligente, desaforado, confuso e necessitado de apoio psicológico. Mas e se ele não receitar algo lisérgico e alucinógeno, jamais terei disciplina para respeitar seus horários... As paredes do quarto me sufocam e essa camisa-de-força imaginária apenas vira inspiração para a capa do cd de uma banda pop. As mesmas queixas, a mesma carência afetiva, os mesmos truques de sedução... a mesma facilidade e nada muda. Tudo cansa... As velhas músicas são mais atuais do que qualquer putaria do seu mp3. Mas eu não... Eu não sirvo, só reclamo. Eu berro para ser ouvido e morro para ser notado. Mas não fui pra cruz. Eu fui pro credo... Pro clero e pra confissão:
- Padre, quando eu tinha 12 anos, matei um morcego e, quando tinha 15, queimei um gato em frente a um shopping, mas nunca matei um bode...
- Tudo bem, reze 51 Ave Maria, meu filho!
- Não!
- Como?
- Não serve, meu chapa... Quero tarja preta!!!!!
E é assim, sempre batendo a cabeça na parede... Me flagro em um dia comum com o rosto encolhido em meio ao líquido. Daí, o simples reflexo da minha cara naquele copo me convida... Como uma sereia, sabe? E afogo meu pranto em mais um vício. Como se sente um condenado caminhando rumo à cadeira-elétrica? Como eu indo de encontro ao teu dedo inquisidor, ao teu olhar pedante, às tuas acusações e queixas. Queria somente alguém que respeitasse o meu silêncio, que entendesse a minha dor, que soubesse rir comigo e simplesmente enlouquecer de vez em quando. É pedir demais? Se for, não peço mais... Me adequo ao senso-comum e viro mais um em meio à massa.
Argumentos que se situam em ilusões infantis ou quixotescas tendem a soar como provas de imaturidade, mas tudo bem. O mundo é infantil, sensível e a verdade só pode ser dita em momentos estratégicos. Somos todos atores de um espetáculo fracassado. Um dia, a lona cai e, embaixo da chuva e com a maquiagem borrada, seremos obrigados a encarar nossas reais identidades... Quem se manteve sincero durante parte da encenação se adaptará facilmente... Agora os atores...
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