sábado, 26 de setembro de 2009

Autobiográfico (Moisés Neto)


Lá fora, venta frio... E aqui dentro as crianças brincam com seus fichários do Ben 10 e me fazem crer que ainda temos chances...

Acabei de ver um filme sobre o Bob Dylan e me comovi com mais uma atuação de gala de Heath Ledger que, ao lado de outros 5 atores (todos brilhantes), transgrediu com primor a linha tênue que separa a fantasia do real.

Hoje, recebi uma visita...

- Mas por que chora, criança?

Não tive resposta até me encarar no espelho e ver que a criança era eu mesmo... há muito tempo atrás. Já tinha me livrado dos óculos de grau e do aparelho nos dentes, mas a corcunda, a magreza e o nariz não enganavam. Já começava a disfarçar a minha timidez com gestos de malandro que aprendia com a vida e com aqueles que a tiravam dos outros na Luiz de Castro. Aprendi a brigar para me defender, a dialogar para enganar, a mentir para crescer. Tive momentos bons e alguns traumáticos, ainda choro do nada, mas consigo ser feliz na simplicidade. Ouvi Deus proferir, não somente bênçãos, mas também as suas mágoas. Já vi Deus mendigo e bêbado mijando em meus pés, já O vi em sonhos me estapeando. Já vi o diabo louco me xingando em pontos de ônibus e dois velhos morrerem para que eu não entendesse nada. Louvado seja o Senhor por usar os loucos para confundir os sábios pois, qualquer que seja o enredo, terei sempre o meu papel.

- Mas por que chora, menino?

O menino me olhou e vi no fundo dos seus olhos negros que não posso falar do que sei já que não compreendo o que eu sei. Me dá uma certa aflição admitir que o meu egoísmo chegou a um ponto tão crítico que me esqueci de mim mesmo enquanto tentava tocar o céu e afundava na areia-movediça ou no lamaçal da ignorância. Amei tanta gente, mas não me permiti ser amado. Porque nunca me amei? Não sei ao certo... Talvez por nunca ter me perdoado, mas nem mesmo sei onde eu errei. Já vi o amor em várias formas e, como não deu certo, sempre afirmei que não era o amor, pois o amor, em tese é perfeito. Talvez até seja mesmo, mas somos meio cegos para a perfeição. Já vi o amor passeando com cachorros, me esperando na porta da igreja, escrevendo outros nomes no quadro da sala de aula, já vi o amor em minhas mãos, quando balançávamos na rede e elas acariciavam as pernas de alguém e nos apresentávamos um ao outro em diálogos sexuais. Já vi o amor sem cabelos, mas também vi o amor nos braços de outros. Já vi o amor como ilusão quando esqueci que o coração tem a forma de um punho fechado, pronto para socar alguém ou atirar flechas rumo a um peito amargurado...

- Mas por que chora, menino?

Finalmente, ele respondeu... E me matou um pouco.

- Choro por que não me reconheço em você! Não vejo em seu semblante indícios de que fui feliz, mas eu sei que fui; que fomos. Temos amigos, temos saúde, temos pais maravilhosos e várias chances de acertar, mas parece que crescemos e não aprendemos a parar de nos cobrar. Estamos sempre querenos nos punir de alguma forma, mas não compreendemos que, não importa o que façamos, seremos sempre apontados e julgados. Antes, isso pouco importava, mas invertemos os nossos valores. Agora, eu que pergunto: Por que chora, Moisés?

Não soube como responder até que me lembrei de que somos sempre aprendizes e que devemos ter a humildade de pedir ajuda quando necessário. Me perdi há muito tempo em minha própria arrogância e agora procuro equilíbrio para me reencontrar. Marquei esse encontro comigo mesmo há muitos anos, mas sempre chego atrasado, sempre buscando por mim, ao invés de ser eu mesmo. Toda vez que tento isso, ouço pedidos de ajuda e conselhos e páro. Sou sempre o bom-samaritano fajuto que ajuda para conseguir a salvação, mas não se preocupa a fundo com ninguém. Fui mimado pelo amor e maltratado pela vida. Sei usar as palavras muito bem e os punhos nem tanto, mas não sei ainda seguir sozinho. Por isso agora quem pede ajuda sou eu. Quero a luz no fim do túnel. Quero o Moisés aqui comigo... Quero aprender a ser quem sou. Finalmente a minha resposta:

- Choro por que dei meu passo mais importante, o primeiro. Admito minhas fraquezas e nunca me senti tão perto de ser feliz mais uma vez. Obrigado.

- De nada!

E assim, sem mais nem menos, aquele anjo partiu depois de ter cumprido sua missão: me salvar de minha própria aflição.

Um comentário:

  1. Fico orgulhoso de ter conseguido escrever isso... Dedico à Fernanda esse texto!

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