Lá fora, a chuva... triste terço de mim que se perdeu pelo caminho. Só, em frente à ilusória lareira, queimo planos, teorias e conspirações. Teias me prendem e cordas me atam à solidão mais cruel. Torno-me assim o meu inimigo íntimo. Busco ajuda, mas só vejo cadáveres sem lençois de fantasmas, mas em molduras bonitas. Todos tão jovens... e eu aqui.
Aqui dentro, eu... parco rascunho de Deus e caído como um anjo rebelde. Estúpido fui quando me permiti crer que a arrogância era um traço de requinte. As taças quebraram, os dentes caíram e os heróis fracassaram. Quem sou eu neste momento? Ainda estou a me perguntar. Só sei que a luz no fim do túnel em nada pinta o céu... e a chuva lá.
Ventos, trovões, enchendes e blackouts. Um curto-circuito qualquer e toda a sua vida de fachada vai embora. Em frascos de luz que não ardem; em potes de amor que não calam. Não sei se fui eu, mas em você vi alguém que eu adorava. Este alguém já não existe. Morreu com o tempo que nem teve... Vaga como um fantasma perêne em meio aos acordes mais tristes e solenes do pianista. Dança no telhado e, de um salto só, atinge a alma que partia. Mas para quê?
Por mais que eu veja os teus, que são os meus tais pensamentos. Corro o risco de ser são, embora a loucura seja a minha amante mais fiel... em um gole de absinto ou um teco de algum pó, outra mente vazia encontra a escuridão que já conheço. Concedo a mim mesmo a nova chance sem nem ao menos saber se o perdão ainda existe. Só sei insistir...
Ps: pessoal, este texto foi inspirado em outras duas obras-primas para mim: "Para os meus demônios" (Leandro Nogueira) e "Jesus Chorou" (Racionais MC's)
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