sábado, 5 de setembro de 2009

Castigo (Moisés Neto)



Sabe, você por si só não consegue sozinha. Fica restrita aos seus sonhos de casas de boneca e contos de fada enquanto um mundo inteiro gira ao seu redor, feio, sujo e violento. Mas também existem coisas boas, correto? Claro que sim, mas é preciso esticar os braços e se esforçar muito para alcançar a glória, coisa que seus travesseiros de penas de ganso não permitem já que te afogam mais rápido com o peso de sua ignorância, com os elos que formam a corrente da sua prepotência. E agora? O que fazer se tudo não passou de ilusão? Se todos aqueles dos quais julgava ser dona se voltaram em círculos de fogo contra a sua majestade? Pois é, Alteza. Os súditos não acreditam mais em você e alguns nem se importam de desafiar as suas leis, as suas regras e procedimentos. Não é necessário nenhum caixote para afrontar seu poder em desgraça. O jogo está se invertendo e seus peões e cavalos parecem não saber mais controlar a ira que atravessa os portões do castelo. E agora? Quero ver qual a expressão que essa cara lavada terá no momento da derrocada. Pode parecer ingenuidade minha, mas você já sabe que não é... Sei que cometi os meus erros, que tive meus deslizes e que já não sou mais assim tão puro como antes, mas a chama não para de arder e queimar cada um dos meus órgãos de ódio por tudo o que você representa. Tenho sido esmurrado frequentemente em seu calabouço, em suas masmorras. Há tempos que não vejo com bons olhos as suas tiranias descabidas e, por mais que alguns me acompanhem hoje, sei muito mais do que é capaz, das armadilhas com a qual compra e despeja almas já sugadas pela própria baixa auto-estima. Já nos confrontamos diversas vezes e o seu erro foi não ter me matado antes. Ter me deixado vivo para zombar de mim foi seu principal equívoco. Você tomou esse rumo sozinha e agora não preciso fazer mais nada. Não serei eu a acender as tochas e te lançar na fogueira... Não, não eu. Vai por mim. Você vai lembrar disso quando, em meio ao fogo do teu próprio castigo, olhar para a arquibancada e encontrar no meu sorriso a sua lágrima, em minhas palmas o seu triste fim. Quer dizer, não pra mim...

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