quinta-feira, 17 de setembro de 2009

Cotidiano (Moisés Neto)

estou cansado...
mil pensamentos vem à mente
os antigos planos desmoronam
são escombros
um entulho consistente em meio a nada
mas não
eu hei de ser grato pela migalha pintada de ouro
de grão em grão, a galinha enche o papo
de tédio em tédio, eu encho o saco
vejam quem assina os contra-cheques
são os mesmos que apertam o gatilho
'pra guilhotina com os pensadores', não é?
'eles são perigosos, agitadores'
de noite, a consciência já pesada
farta de acordar pra mais do mesmo
olhe ao redor e procure algum brilho
na verdade é tudo uma versão empoeirada
do que um dia já foi puro
o coração do homem é como um globo da morte
mas o seu bolso é um alçapão
suas mãos trêmulas descontam cheques, trocam notas
mas também empunham facas
eu assisto a tudo no meu canto
o meu mundinho particular
cabine de vidro que me faz parecer diferente,
mas tombo como qualquer um de vocês
nestas minas de cifras...
tudo é vulgara nós, o que resta afinal?

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